Dependência e Liberdade

Há os que dependem, não somente de si, mas do outro. Esses se esforçam para colocar no outro não apenas a sua alegria, como também a tristeza. A culpa passa a ser, para essa pessoa, quase um arrimo de insustentáveis lamentos. A pessoa dependente torna-se não apenas um fardo, como também um sofrimento, sobretudo quando se depende de quem se constrói uma associação quase familiar, de afeto, do qual não se pode desvincular ou acreditar num desligamento mais brusco, num quebrar de encanto.

Todo homem e toda mulher é capaz de depender de si só para garantir a sua sobrevivência. É claro que pode não ir longe por esse caminho, mas a sensação de controle de destino torna esses homens e mulheres mais hábeis para o enfrentamento da vida. Mesmo entre os seres que mais confiam em si, desde o vírus que não morre depois de 300 anos inativo, até o homem capaz de ir à Lua, não há, dentre eles, a sensação de que nada é impossível. Dependem, antes de mais nada, de si mesmos para construir, habilmente, o seu destino.

Existe, no entanto, aquele que percebe a vantagem de escravizar as consciências alheias, tornando-as dependentes de si para que façam sentido. Ainda que esse sentido seja viver na condição de um escravo, há os que admitem que isso é melhor do que não ter sentido para a vida. Os que assim pensam, acreditam que podem passar pela vida com pouca contribuição. A mediocridade do dependente é tão grande quanto a sua dependência.

Portanto seria verossímil imaginar que os que se habituam aos confortos do populismo, os burocratas, os que se alimentam do dinheiro que, sabem, é finito e oriundo do pagamento de impostos e empréstimos ao governo. Há, entre esses, no entanto, a sensação de que há estabilidade, possibilidade, inclusive, de não fazer nada e ser remunerado por isso. Com isso, definhando os neurônios pela falta de competição, atrofiando as ideias pela dependência da decisão alheia, fraquejando o poder inato de decisão que toda pessoa possui, torna-se ainda mais dependente dos outros. Viram um ser em estado quase que vegetativo, ainda que operando normalmente. Começam a vacilar diante de qualquer decisão, tornando-se inseguros do que fazer ou do que pensar. A ideia de não fazer nada torna-se não apenas uma boa ideia, como uma dádiva divina: que bom é não fazer nada e poder ganhar algo por isso.

A dependência afetiva, amorosa, de pais e filhos, de namorados e namoradas, de homens e mulheres, de crianças e chupetas, são etapas naturais do enriquecimento de nossas personalidades. É normal, na vida de todos, ter momentos de fragilidade, de dependência, de imaginar-se, momentaneamente, sem rumo, dependendo de um capitão que vire o barco. Mas ela vai embora quando percebemos que não há ninguém no mundo capaz de mover nossos músculos, nossa mente, nosso direcionamento e nossas ideias do que nós mesmos.

O fazer nada, ainda que permita momentos de insight, é paralisador. Corre-se, inclusive, o risco de se sentir recompensado por nada fazer, alimentando aí um ciclo vicioso de que é possível viver fazendo muito pouco.

Os corruptos, por exemplo, são um grande exemplo de dependência. Dentro de sua mediocridade, passam a vender favores em vez de prestar serviços. Tornam-se negociadores dos próprios crimes. Começam a depender dessa atividade, que sabem que é o equivalente de não fazer nada, para sobreviver. Creditam o futuro brilhante de suas carreiras às manobras verticais que procuram fazer enquanto aspiram ao alpinismo social. Dependem, portanto, de instituições coniventes, de outros negociadores de favores e de um clima onde esse tipo de atividade é aceitável. Ou o que é pior: até mesmo desejável.

É conhecido que países socialistas criam cidadãos dependentes de serviços estatais. Isso não ocorre por acaso. É uma forma de controlar os cidadãos, escravizá-los mesmo, senão manipulá-los para que façam parte de um propósito maior. Não por acaso, nesses países impostos altíssimos são aplicados, quase que eliminando toda a riqueza que a população possa gerar, tornando-a ainda mais dependente das decisões de outras pessoas. E a pior dependência que pode haver é não conseguir decidir nada sozinho.

Nesses lugares, a propaganda sobre o individualismo é negativa. Não por acaso, hoje, em fundações mundo afora, há os que trabalham para que novas regras, regulações, vírgulas e parênteses possam provocar mais perda de tempo, impedindo que as pessoas possam agir de forma mais solitária para construírem o que querem com facilidade. Por isso nunca ouvimos falar de grandes produtos nascidos em países socialistas que todas as pessoas do mundo queiram usar.

Dependemos, antes de mais nada, de nós mesmos. É mister que terminemos de ler esse texto já partindo para as nossas próximas decisões, certas de que todas elas terão impacto transformador no mundo que nos cerca. Não pensar nisso pode significar que você está dependendo de algo ou de alguém para que a sua vida faça sentido. Esse é o sinal principal de que é necessário maior liberdade para agir e menos dependência alheia. Somente assim poderemos fazer alguma diferença.

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